A feira
Apresentação
Trama nasceu do desejo de criar um espaço de visibilidade e negociação para a arte produzida na Bahia — a partir daqui, com voz e critérios próprios.
Uma feira de arte é um dispositivo de mercado. Ela existe para que as obras encontrem quem as deseje, para que as pessoas possam se aproximar delas e para que artistas possam viver do que fazem. A comercialização é parte das condições materiais que permitem a continuidade do trabalho artístico. Trama nasceu do meu desejo de criar um espaço de visibilidade e negociação para a arte produzida na Bahia, a partir daqui, com voz e critérios próprios.
A primeira edição de Trama acontece no Palacete Tirachapéu, na Rua Chile, no Centro Antigo de Salvador, em diálogo com o Palacete Arte, programa da casa voltado ao desenvolvimento do campo das artes. Trama chega a um território que já tem vida própria: o Centro é lugar de moradia, trabalho, comércio de rua e criação. A Feira quer ampliar as trocas que já acontecem ali, aproximando quem vive e trabalha no Centro de pessoas vindas de outros bairros, cidades e países.
Nesta terra, que já era dos povos indígenas, a colonização europeia e a escravização de africanos trazidos à força produziram uma história de violência. Apesar dela, e contra ela, povos indígenas, africanos e seus descendentes criaram, transmitiram e transformaram saberes, ritmos e modos de cozinhar, rezar e fazer com as mãos que se espalharam pelo país. Salvador foi a primeira capital do Brasil e um dos grandes portos do Atlântico Sul. Esse legado continua vivo nos terreiros, ateliês, oficinas, escolas e coletivos que produzem, experimentam e constroem formas de sustentação em comum. Vista daqui, a Bahia não é periferia: participa de uma rede de relações atlânticas que liga a costa africana, o Caribe e o restante das Américas, numa experiência que Lélia Gonzalez chamou de amefricanidade. É também parte do Tout-Monde de que fala Édouard Glissant, um mundo constituído pelas relações entre diferentes histórias, culturas e modos de existir, que se encontram e se transformam sem que suas diferenças precisem desaparecer.
Essa história é marcada também pela desigualdade. Durante muito tempo, a produção negra e indígena da Bahia foi confinada ao folclore, ao objeto etnográfico e à lembrança de viagem, como se não pudesse expressar pensamento contemporâneo, participar do mercado de arte e integrar coleções e museus com o devido crédito a seus artistas. Uma feira de arte contemporânea na Bahia precisa encarar essa história. Precisa reconhecer como pensamento o que por tanto tempo foi tratado como paisagem e contribuir para que artistas historicamente desconsiderados sejam reconhecidos pela força e pela complexidade do que produzem no presente.
É nesse contexto que Trama pretende contribuir para a construção de um mercado de arte mais amplo e diverso na Bahia. Um mercado capaz de reconhecer a pluralidade da produção artística, ampliar sua visibilidade e criar melhores condições para que artistas e demais agentes desenvolvam seu trabalho no próprio território. Para isso, a Feira reúne diferentes modos de fazer a arte chegar às pessoas. Há coletivos que compartilham ateliês, ferramentas e oportunidades, fazendo do trabalho em comum uma forma de criação e sustentação. Há artistas que se apresentam em nome próprio e que, como muitos desses coletivos, foram muitas vezes reconhecidos primeiro fora da Bahia. Há iniciativas dedicadas à formação e à difusão da arte, além de galerias parceiras que acompanham e projetam a trajetória de quem representam. Esses diferentes modos de atuação dividem a mesma casa não porque sejam iguais, mas porque todos participam da construção desse mercado e podem encontrar ali novas possibilidades de interlocução, intercâmbio e crescimento.
Trama fala com quem coleciona e com quem nunca comprou uma obra. Uma aquisição pode nascer de uma descoberta e amadurecer com tempo e atenção: numa conversa com quem criou, diante de uma obra que permanece na memória ou de uma imagem que chama de volta. Artistas, coletivos, galerias e a equipe da Feira estarão ali para acompanhar quem quiser dar esse primeiro passo. Escolher uma obra para si não é apenas adquirir um objeto: é incorporar a arte à própria vida e contribuir para a continuidade do trabalho artístico.
Mas a relação com a arte não começa nem termina na compra. Muita gente vai atravessar a porta do Palacete sem a intenção de adquirir uma obra, e Trama também existe para essas pessoas. A entrada gratuita permite chegar, permanecer diante de um trabalho o tempo que se quiser, conversar com quem o fez, discordar e voltar no dia seguinte com a família. A mediação acompanha esse encontro sem pretender esgotar os sentidos de uma obra ou ensinar a maneira correta de olhar. Cercados de imagens, temos cada vez menos tempo para olhar com atenção. Ninguém precisa entender tudo de imediato: há numa obra algo que resiste à explicação, e muitas vezes é isso que desperta o desejo de conviver com ela.
Gosto da palavra amador em sua relação com o verbo amar, no sentido que o filósofo Bernard Stiegler lhe devolveu: quem cultiva a atenção, forma o próprio juízo e se implica naquilo que aprecia. Por isso evito falar em formar público, como se faltasse a alguém essa capacidade, e prefiro falar em abrir a casa: criar condições para que mais pessoas desenvolvam essa relação, descubram seus interesses e construam repertórios próprios. Não se trata de corrigir o olhar de ninguém, mas de acolher diferentes experiências e ampliar as possibilidades de encontro com a arte.
Muitas das obras apresentadas na Feira dialogam com lugares, experiências e repertórios que fazem parte da vida de quem vive e atravessa a cidade. Seus gestos, materiais e modos de ver foram também formados aqui, em quintais, escolas públicas, festas de largo e nas ruas. Essas referências podem despertar reconhecimento, mas não são uma condição para que as obras sejam compreendidas ou desejadas. A arte tanto pode aproximar pelo que nos é familiar quanto abrir caminhos para aquilo que ainda não conhecemos.
A gratuidade é uma escolha. Acredito que a riqueza de uma cidade se amplia quando passa de mão em mão, cria oportunidades e chega a mais pessoas. Ao mesmo tempo, cada venda na Feira representa renda para artistas, coletivos e galerias que estão, na sua maioria, na Bahia. Quem visita também pode caminhar pela Rua Chile, comer no Centro e movimentar o comércio do entorno. Ampliar o acesso à arte e fortalecer seu mercado não são objetivos opostos: a chegada de novos públicos, a descoberta de artistas e a construção de relações duradouras também fazem parte das condições para que esse mercado se desenvolva. Quero que o mercado que estamos construindo comece de portas abertas.
Convido quem coleciona fora da Bahia a conhecer de perto, ao lado de quem cria, uma produção que muitas vezes só se conhece à distância. Espero que instituições descubram aqui obras para seus acervos, porque as coleções públicas têm papel decisivo na preservação da memória artística e no reconhecimento de trajetórias; e que empresas e organizações encontrem na Feira obras para suas coleções e seus espaços de trabalho, fazendo da arte parte do cotidiano de quem os ocupa e visita.
Novembro é o mês em que o Brasil é chamado a reconhecer a centralidade da população negra em sua formação e a enfrentar as marcas persistentes dessa história. Realizar a primeira edição de Trama nesse período é também assumir um compromisso com a produção negra da Bahia e, a partir dela, com toda a diversidade da arte que se faz aqui, para que essas vozes ganhem visibilidade e reconhecimento no presente e no futuro.
O que uma geração recebe nunca chega intacto à seguinte. Cada pessoa que pega o fio transforma a trama e a leva adiante. Trama nasce como a primeira edição de uma série e quer ser medida pelo que realiza, pelas relações que ajuda a construir e pelo que cada edição deixa para a próxima.
Agradeço ao Palacete Tirachapéu e ao Palacete Arte por abrirem a casa para esta primeira edição e por acreditarem, conosco, que a arte feita na Bahia merece um lugar assim.
Que cada pessoa encontre aqui um lugar onde diferentes histórias, experiências e modos de fazer possam se aproximar sem perder suas particularidades.
Monique BadaróDiretora geral e idealizadora
Quem está
na feira
Artistas, coletivos, casas, acervos e galerias da primeira edição, com biografias, declarações e obras.
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