Geovana Côrtes
Pintura
- Participação
- Artista
- Na feira
- Obras à venda, com preço informado no local
- Ateliê aberto
- dia e horário a definir
- @geovanacortes
Biografia
Geovana Côrtes (Palmeiras, Chapada Diamantina/BA, 1996) é artista visual.
Através da pintura e cerâmica tem pensado as relações entre corpo e território, com um olhar voltado para os seres multiespécies que habitam esses espaços. Compreendendo sua prática como uma aproximação sensível aos modos de vida que se entrelaçam na paisagem. A pesquisa criada habita uma relação ecológica entre ser-humano e outros seres, tendo pigmentos minerais coletados em seu território como agenciadores do processo criativo.
Doutoranda e mestre em Artes Visuais na linha Processos de Criação Artística (EBA-UFBA). Em sua trajetória, realizou exposições nacionais e internacionais, com destaque para a individual bicho metamorfoseante (A Galeria, Ativa Atelier Livre, Salvador, 2024) e as coletivas Casa de Mulheres (Museu de Arte Moderna da Bahia, 2024) e 2º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Goiás (Centro Cultural UFG, 2026). Em 2026, foi premiada com o Prêmio Aquisição no Prêmio Sesc de Arte (SESC Centro, Curitiba/PR, 2026).
Integra o ateliê coletivo do CAB (Circuito de Arte em Boteco) - O Escritório em Salvador-BA.
Declaração do artista
Minha pesquisa se debruça sobre o encontro do corpo com o território – lugar de memória e criação de gestos capazes de reconhecer maneiras de existências plurais e criar formas de conexão a um ponto comum da vida. Compreendo que o território forma a paisagem e por ela é formado. Diante disso, surgem questões fundamentais que se configuram como uma busca para encontrar, por meio da criação artística, o elo que define a experiência de existir no mundo.
Diante disso, penso: de que maneira nós, enquanto seres humanos, podemos nos aproximar da maneira de existir de outros corpos que ocupam o território, não para nos transformar em outros seres, mas para, na conjugação, criar outras existências e outras maneiras de estar no mundo? Compreender estratégias de sobrevivência do território pela paisagem é uma forma de lidar com questões climáticas, a desertificação do Cerrado e da Caatinga, a intermitência dos fluxos dos rios, a desvinculação entre ser humano e ser mais que humano. O existir se encontra deslocado da noção de vida, proliferação, abundância, possibilidade de viver bem em comunhão.
Olhar para todos esses processos e buscar enfrentá-los – e até compreendê-los por uma outra ótica, a ótica de outros seres que convivem com essas mudanças muito antes de nós – é a minha busca como artista. São os rios, os morros, as pedras, as montanhas, as terras coloridas, as plantas e os bichos fossilizados. Crio, junto com esses seres, um corpo-paisagem, como estratégia de proliferação da existência desses seres e de suas maneiras de continuar teimosamente existindo.
Através da pintura e cerâmica tenho pensado como as relações entre corpo e território cria paisagens. A minha relação com território e consequente com a paisagem se dá por uma perspectiva de deslocamento. Sou de Palmeiras, cidade na Chapada Diamantina e vivo em um fluxo de idas e vindas eternas entre o litoral e o interior. Nesse sentido, imagens que sempre permearam minha existência voltam e se fixam na mente com características de transitórias. As imagens criadas são imagens do entrelaçamento do corpo com esse território em deslocamento, me interessa resgatar os gestos imortalizantes dos território no corpo e inseri-los em outros espaços – mostrar sua insistência por existir.
Os pigmentos minerais que encontro e coleto no território de Palmeiras são parte fundamental da minha pesquisa. Eles são pontapé para reconexão com o território e também a manutenção das memórias do corpo na paisagem. No processo criativo, os pigmentos são tanto matéria pigmentaria nas esculturas, como referencias formais e de cor para as pinturas.
Diante disso, compreendo as comunidades da região não apenas como humanas, mas como um tecido vivo que inclui seres-mais-que-humanos — montanhas, águas, plantas, pedras, astros. São esses seres que compõem o território e que, assim como as comunidades humanas, possuem saberes ancestrais e modos próprios de habitar o mundo. Eles nos oferecem possibilidades de apreensão e compreensão de seus modos ampliados de existir, e a partir disso, podemos criar mundos outros, para além daqueles que o Antropoceno nos impõe.
É desse ponto que emergem as imagens do corpo-paisagem, elas carregam consigo essa questão encrustada nas formas e nos materiais. As formas evocam músculos, órgãos, sementes — corpos propulsores de existência. Os materiais que me interessam para trabalhar, como fragmentos de pigmentos minerais que coleto em caminhadas pelo território, carregam essa mesma camada de sentido. O território, por sua vez, é o portal onde a busca acontece; é ele que torna possível a experiência compartilhada com outros seres-mais-que-humanos. Nessa relação, paisagens vão sendo criadas, e é justamente por meio delas que, como humana, aprendo a perceber e habitar o mundo de outro modo — um modo de co-habitar e co-existir que alimenta o que meu ser reconhece e pelo qual é alimentado.
É a criação de paisagens em parceria com o território, meu corpo e os outros seres o que torna possível existir de fato no mundo. A vida, então, ganha um sentido ampliado de existência: há nela intenção, colaboração e reinvenção do presente.
Nesse processo, as caminhadas de reconhecimento do território são parte essencial — é no contato direto que a relação se inicia e, somente a partir dele, tornam-se possíveis os corpos-paisagens. São também nas caminhadas que coleto fragmentos de cor e textura do território, e acredito que é por eles que o processo no ateliê se inicia — influenciam tanto as paletas quanto as formas. Tenho me interessado especialmente por corpos montanhosos: a camada geológica me atrai em suas formas, cores e texturas. Paralelamente, sinto-me guiada a perceber a relação entre montanhas e seres de água — como coabitam e constroem paisagem juntos? Um ser gigantesco que emerge do ventre de um ser imensamente líquido e sem fronteiras. E como isso se dá com o céu, com seus seres astrais, que comungam e geram luzes, movimentos e emoções?
Com esse processo aprendo a permitir que o corpo habite o território e criar, junto com ele, imagens que reflitam nossa relação. Acredito que as imagens carregam consigo o território: viajam, contam suas histórias, guardam memórias e vivências, e assim mantêm o território vivo e expandido.
Obras de destaque




Ficha técnica
matéria, 2025, 20x30 cm.Óleo sobre tela.
tempo, 2025, 20x30 cm.Óleo sobre tela.
a vida acontece pelas entranhas, 2026, 2 telas de 20x30 cm. Óleo sobre tela.